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01 julho 2009

O Plágio e a Criatividade (Parte 4)




Nuvens Douradas
(Tom Jobim)
Na imagem ao lado, fez-se uma fusão de uma imagem de Tom Jobim com a de um crepúsculo (ou aurora). É como se alguém houvesse fotografado o pensamento de nosso grande mestre no instante exato em que ele compunha “Nuvens Douradas”. A despeito de tudo o que se disse a respeito dessa música, eu não tenho dúvidas de que não se trata de um plágio - mas isso eu preciso explicar com bastante calma. Antes, deixe-me colocar um fecho no assunto que eu comecei na semana passada.

Mais Roberto e Erasmo Carlos

Dois anos após a morte do maestro Sebastião Braga, ou seja, em 2007, Roberto e Erasmo Carlos foram alvos de uma nova acusação de plágio. O processo é recente, mas as músicas em litígio são bem mais antigas que as do processo anterior. Em fevereiro de 1971, a professora Erli Cabral Ribeiro Antunes registrou, na Escola Nacional de Música, a música “Aquele Amor Tão Grande”, de sua autoria. Logo após, Roberto fez um show na cidade de Paraíba do Sul (SP), e Erli aproveitou a ocasião para lhe entregar uma cópia da partitura, anotando em seu verso o telefone e o endereço para contato. Nutria esperanças de que o Rei gravasse a sua música, ou que, pelo menos, lhe desse algum retorno, o que jamais aconteceu. Mas, aí... já deu para adivinhar? Isso mesmo: naquele mesmo ano, Roberto e Erasmo registraram e gravaram Traumas. Acontece que essa música, segundo diz Erli, teria nada menos que dezesseis compassos copiados daquela partitura.

Bom, isto é o que eu sei, por enquanto. Como no caso de “O Careta”, também neste não tenho material suficiente para emitir qualquer opinião. Tudo que consegui foi a primeira página da partitura de Aquele Amor Tão Grande, que mostra apenas o primeiro dos dezesseis compassos que, teoricamente, teriam sofrido um “cut and paste”. De qualquer forma, vale o registro:



Ah, e, se achar que vale a pena, ouça aqui a música Traumas.

Há muitos outros “casos” de músicas supostamente plagiadas por Roberto Carlos, mas a grande maioria deles é meio “forçação de barra”. Destaco apenas um, por ser didático. O vídeo abaixo contem o início de uma produção de Charles Chaplin, que também fez a música, como fica bem caracterizado (em letras bem grandes, por sinal) logo no início. Preste atenção ao trecho que começa na marca dos 0:40, e depois me diga se é plágio ou não:



Eu sei que essa pergunta que eu vou fazer pode parecer meio sem sentido, principamente se você também achar que esse trecho que acabou de ouvir lembra demais o tema principal de “você, meu amigo de fé, meu irmão camarada...”, mas... é plágio?

Moacyr Franco

“Eu nunca mais vou te esquecer” foi um grande sucesso na carreira de Moacyr Franco. Ouça:



O tema do refrão (Eu nunca mais vou te esquecer, eu nunca mais vou te esquecer, meu amor) é bastante conhecido.

Agora ouça “Nessum Dorma”, da ópera Turandot, de Puccini. Preste atenção ao tema que começa na marca dos 1:15:



Calma, calma! Antes de dizer que é um plágio descarado, leia o que diz Moacyr Franco numa entrevista que deu ao site “Jornal d’aqui on line” (edição 459).

Jda: Na carreira como cantor foram 41 discos de ouro, composições suas também fizeram muito sucesso, "Eu nunca mais vou te esquecer" por exemplo?

Eu tinha feito e dado para o Altemar Dutra, para o Nelson Ned e ninguém quis gravar. Um dia estava preparando um disco e a censura que existia na época resolveu vetar uma música minha (uma brincadeira que eu fazia com a Justiça) - vetaram. Na hora era preciso decidir o que colocar no lugar - aí lembrei dessa música - colocamos - faltava o refrão entre verso e outro - lembrei da ópera Turandot. A orquestra fez um solo e imediatamente me veio - a frase: "Eu nunca mais vou te esquecer" que encaixou-se perfeitamente. E foi realmente um sucesso. De modo que costumo dividir com Puccini, mesmo sem ele ter feito nada (risos) a autoria dessa música.



FAGNER

Fagner compôs Penas do Tiê aproveitando-se de uma melodia que ele achava que fosse de autor anônimo. A música é, na verdade, do maestro Heckel Tavares, cuja família já entrou com um processo contra o cantor. Trata-se, na minha opinião, de um terrível mal-entendido:




TOM JOBIM

E chegamos, finalmente, a Tom Jobim. Aquele que eu considero o melhor compositor brasileiro da segunda metade do século XX foi, também, o alvo preferencial dos caçadores de plágio. “Águas de Março”, por exemplo, seria uma cópia de “Águas do Céu”, composta em 1956 por Leny Eversong. Já a história de Tempos Dourados é mais ou menos a seguinte: Tita, uma cantora evangélica, teria feito músicas para um disco religioso que, por coincidência, foram arranjadas, na gravadora, por João Donato e por Paulo Jobim, filho de Tom. Estranhamente, alguns dos compassos de uma das músicas desse disco teriam “aparecido”, pouco tempo depois (em 1986), na música Anos Dourados, parceria de Tom com Chico Buarque. Em ambos os casos (Águas de Março e Anos Dourados), acabo entrando no mesmo “beco-sem-saída”: não tenho as músicas que foram supostamente copiadas, portanto não posso opinar.

Mas eu quero me fixar num caso específico. Este eu tenho como comentar, e vou fazê-lo até porque merece um estudo mais aprofundado. Trata-se da esplêndida “Nuvens Douradas”.

NUVENS DOURADAS

Só muito recentemente é que eu descobri o motivo pelo qual fomos todos privados de ouvir essa maravilhosa composição (de fato, ela parece ter sido banida da história da MPB, quando merecia estar, no mínimo, ao lado das mais famosas composições de Jobim, como Corcovado, Garota de Ipanema, Samba do Avião, e por aí vai...). Essa é, em resumo, a história: a viúva de um dos primeiros parceiros de Tom, Marino Pinto, considerou que Nuvens Douradas era um plágio de “Prece”, composta por seu marido em parceria com Vadico (o mesmo de Feitiço da Vila, dele e de Noel Rosa), e ameaçou processar Jobim. Precavido, ele (ou a gravadora) retirou a música de circulação.

Encontrei, no YouTube, esta interpretação de Prece. Ouça:



Se quiser ouvir uma gravação profissional, existe uma com Altemar Dutra no site da MegaStore (você terá que clicar na música cantada por ele).

Já Nuvens Douradas pode ser encontrada neste site ou neste site.

Até pouco tempo atrás, eu não estava nem aí para essa questão de plágio, e seguia a corrente majoritária, isto é, aceitava, sem discutir, tudo o que a imprensa divulgava sobre cada caso. Nuvens douradas, porém, me fez parar para pensar.

Para mim, essa música é tão diferente de “Prece”... Eu até concordo que hajam coincidências numa parte significativa do tema principal de ambas as composições, mas isso depois de analisar as duas com a razão, e não com a alma. Definitivamente, para mim são obras completamente distintas. Mas,... por que será?

O artigo já está longo demais, por isso vou terminá-lo deixando esta pergunta no ar. Dessa vez, não pretendo demorar uma semana para publicar a continuação. Será no sábado, dia 4 de julho. É que eu já tenho quase tudo escrito. Só preciso dar uns retoques, e também exemplificar melhor as comparações que farei entre Prece e Nuvens Douradas. Nesse próximo artigo, também pretendo expor algumas das minhas reflexões sobre a conveniência ou não de defendermos uma mudança de paradigma em relação ao plágio. É um assunto difícil, por isso gostaria de ser o mais claro possível. Até lá.

DEMAIS ARTIGOS DESTA SÉRIE: 1 - 2 - 3 - 5 - 6





29 junho 2009

Parece mágica, mas não é




Parece mágica

(mas não é)
Eu resolvi mostrar aqui este vídeo, em primeiro lugar, para que vocês possam se deleitar com a habilidade deste músico. Não é todo dia que se pode ver tão de perto os dedos de um virtuose das guitarras em plena atividade.

Obs: este vídeo faz parte de um DVD didático de Rusty Cooley chamado Fretboard Autopsy.

Rusty Cooley – Guitar Lesson on 12-Note Split Patterns



Quem é Rusty Cooley?

Não acredito em magia nem em poderes sobrenaturais: o que há por trás de um bom trabalho é... muito trabalho. Qualquer pessoa saudável e com vontade será capaz de fazer o que ele faz. Um bom caminho é seguir a sua própria receita: são três horas diárias de treino, desde que ganhou sua primeira guitarra, aos quinze anos de idade. Teve professor? Sim, mas não se adaptou ao academicismo e resolveu estudar sozinho mesmo. Comprou livros, vídeos (como o Metal Method, de Doug Mark), e se dedicou. Muito importante também: ele estudou Teoria Musical.

Depois que aprendeu a tocar, fez parte da banda Revolution (entre 1989 e 1993), de onde saiu para formar a própria banda - Dominion. Esta, a propósito, nasceu e morreu em 1995, ano em que foi eleito o melhor guitarrista de Houston ao participar do Guitar Master Series. Gravou alguns CDs e depois começou a se especializar como instrutor de guitarras, o que inclui gravar coleções de vídeos didáticos, colaborar com artigos em revistas e sites especializados, e a testar produtos como os da Pro Tone Pedals. No vídeo acima, é bom que se diga, ele se apresenta como instrutor do site Rock House.

12-Note Split Patterns

O que vemos acima é Cooley ensinando uma boa forma de executar uma escala qualquer de modo que o movimento se concentre quase todo nos dedos, sem a necessidade de movimentos bruscos com a mão esquerda, fazendo com que a escala, dessa maneira, flua com muita naturalidade. Essa técnica baseia-se na quebra (split) da sequência em duas partes.

No vídeo, Cooley começa mostrando a execução da escala de Sol Maior. Ele a divide em duas partes. Na primeira (veja o vídeo na marca dos 0:29), temos as 12 notas da escala de Sol Maior. Ele começa na primeira corda (a mais grave), e quando chega à décima-segunda nota ele já está na quinta corda, executando um Re. Para executar a segunda parte, ele “retorna” uma corda, isto é, volta para a quarta corda, e sobe uma posição (veja o vídeo na marca dos 0:34). Trata-se das mesmas 12 notas, só que uma oitava acima. Na prática, o que ele faz pode ser descrito na partitura abaixo (obs: eu assinalei em vermelho o salto de notas que caracteriza o "split"):

Clique aqui para ver maior

A seguir, Cooley nos ensina a execução de outras escalas de 12 notas, mas a técnica é a mesma, ou seja, ele faz um "split", retornando uma corda e avançando uma casa. O que se poderia comentar a respeito do resto deste vídeo são as menções que ele faz aos modos gregos (dórico, mixolídio, etc.), mas isso eu deixo para uma próxima oportunidade, ok?

De qualquer modo, para treinar essas escalas, você pode baixar os mesmos backtracks utilizados por Cooley neste vídeo, clicando nos links abaixo:

Backtrack 1 - Modo Jônico

Backtrack 2 - Modo Dórico

Detalhe: eu achei que a guitarra dele está afinada um semitom abaixo do padrão.


18 junho 2009

O Plágio e a Criatividade (Parte 2)






Esta é a segunda parte da série sobre Plágio e Criatividade.

No artigo anterior, vimos que o Creaky Boards havia se retratado da acusação de plágio que fez ao Coldplay, dizendo que ambos haviam se inspirado na trilha sonora do video-game The Legend of Zelda. Achei melhor pesquisar um pouco e trazer para este artigo um dos vários vídeos que o YouTube nos oferece sobre o assunto. Convido-os a ouvir o tema e tentar imaginar que poderes o mesmo teria para influenciar dois músicos a comporem temas tão diferentes:



E aí, o que acham? Parecido? Eu não achei nem um pouco...

Mas, voltemos ao que interessa. Falemos de uma banda nacional, o NX Zero, que está passando pelo mesmo perrengue do Coldplay. Seria “Daqui pra frente” uma cópia de “MakeDamnSure”, da banda norte-americana Taking Back Sunday?



E agora, comparem Razões e Emoções, também do NX Zero, com a canção Radio, do Alkaline Trio:



Todos esses vídeos são uma pequeníssima parte do que há por aí sobre o assunto, mas eu só estou escolhendo alguns para que possamos preparar nossos espíritos e embasar nossas opiniões para o que virá a seguir.

CASO JORGE BEN JOR x ROD STEWART

Antes, mais um casinho. Dessa vez, ao contrário do anterior, em que artistas nacionais são processados por artistas estrangeiros, este caso é o oposto. Trata-se de um artista nacional processando uma celebridade internacional. Vejam só este vídeo da Globo. Ele foi feito para uma edição do Fantástico de 1979, na época em que o escândalo estourou. Dignas de nota são as aparições de Nelson Motta, Edu Lobo, e, é claro, de Jorge Ben Jor (todos bem mais jovens, quando este último, inclusive, se chamava simplesmente Jorge Ben). Observe a polêmica em torno do assunto, e a história que Edu Lobo conta sobre as músicas que Miles Davis roubou de Hermeto Pascoal. Tem uma hora em que o Jorge Ben fala “Bom, a coincidência musical pode acontecer, ... mas oito compassos já não é mais coincidência!”. A reportagem é tão minuciosa que foi buscar apoio até mesmo no grande maestro brasileiro Radamés Gnatalli. Ele foi enfático: “as melodias são essencialmente iguais”. Vejam o vídeo:



Trata-se de um plágio clássico. Os temas são tão iguais que eu só posso crer que Stewart tenha se deixado trair pela memória auditiva (acho que Gnatalli também achou o mesmo...). Quero dizer com isso que ele não deve ter se dado conta de que, em algum momento, seja num saguão de aeroporto, seja no rádio do seu carro, ouviu a música de Ben Jor. Dado o sucesso que ela teve no Brasil, é bem provável que tenha atravessado o Atlântico, chegado aos seus ouvidos e se alojado em seu subconsciente. Acredito mais nessa hipótese do que num roubo descarado, porque não é concebível que um artista consagrado como ele, e que tenha um mínimo de inteligência, coloque em risco a sua credibilidade ao copiar um riff sem tentar mudar ao menos uma notinha, uma colcheia que seja.

Está claro, portanto, que eu não acredito em má-fé da parte de Stewart. Isso, no entanto, não o livrou de minha antipatia, tendo em vista a forma com que deu uma volta em todo mundo com aquela história de doar à Unicef o valor que ele deveria pagar a Ben Jor. Francamente, se não era para este dinheiro vir para o bolso de quem o merecia, só porque não necessitava tanto dele assim, que viesse, ao menos, para o Brasil, onde o que não falta é instituição de caridade séria e necessitada de recursos.

MINHA OPINIÃO:

O tema de Viva La Vida é, sim, muito parecido com o de If I Could Fly. Mas, afinal, o que isto realmente significa? Para começar, o trecho idêntico em ambas as músicas é grande o suficiente para nos chamar a atenção, mas não o suficiente para que se possa dizer que pertença a “fulano” ou a “beltrano”. Quem já estudou Fraseologia, em Teoria Musical, logo identifica, em ambos os temas, duas partes: uma pergunta (frase antecedente) e uma resposta (frase consequente). A pergunta, que é a primeira parte do tema, é quase idêntica em ambas as músicas. Já as respostas começam iguais mas, como já disse no artigo anterior, seguem caminhos diferentes. Ou seja, as respostas são diferentes. Em Música, não existe uma única resposta para cada pergunta (há inúmeras possibilidades de frases consequentes para cada frase antecedente), daí que não faz sentido privar um compositor de escolher diferentes respostas para uma pergunta só porque ela já foi utilizada antes por outro compositor (abaixo, trecho extraído de um trabalho sobre Fraseologia).

Fraseologia

Que me desculpe, talvez, a maioria de vocês, mas condenar o Coldplay por violação de direitos autorais me causa um certo mal-estar. Me cheira a cerceamento de criatividade. E não importa se o plágio de que estão sendo acusados tenha sido consciente ou inconsciente. Ora, quer dizer, então, que ninguém, nunca mais, poderá compor uma melodia que comece por aquelas notas e que tenha os mesmos acordes? Do ponto-de-vista artístico, não vejo como condenar alguém por ter deliberadamente pêgo uma melodia e tentado melhorá-la ou adaptá-la a um outro contexto. E olha que nem é isso o que deve ter acontecido com o Coldplay, porque é de se esperar que haja, em todos os que tomam por base uma melodia alheia para compor uma nova peça, uma tendência instintiva de tentar mudá-la ao menos o suficiente para que não desperte suspeitas.

No mundo da Música Erudita, o conceito de plágio é muito mais artístico. Trata-se de roubar uma idéia, e não propriamente as notas de uma melodia. Imagine que Mozart, Bach ou Beethoven tenham dado de cara, algum dia, com alguma melodia composta por algum compositor obscuro, e que essa melodia lhe desencadeasse o seguinte pensamento: “cara, se eu fosse o compositor dessa melodia, teria usado essa nota no lugar dessa, teria acrescentado uma bordadura aqui e esticado mais aquela nota ali”. A melodia modificada lembraria muito a original, é claro, mas o importante é que ficaria MUITO MELHOR. Agora, do jeito que as coisas são colocadas, o fato de alguém ter composto uma frase musical parece criar em torno dela como que um campo minado do qual os outros compositores devem se afastar ao máximo para não correrem o risco de ir pelos ares. É um absurdo pensar que muitas melodias maravilhosas, à espera de serem compostas, jamais o serão pelo fato de alguém já ter composto algo começando pelas mesmas notas. Bom, isso é o que tem ocorrido em quase todos esses processos de plágio de que temos ouvido falar. Pois saibam que Mozart, Bach e Beethoven não dariam a mínima para isso, porque, para eles, não faria o menor sentido, artisticamente falando.

Bom, é lógico que eles não copiavam as obras de outros compositores. Mas eles se sentiam, não digo somente à vontade, mas na obrigação de melhorar qualquer coisa que eles achassem que valesse a pena. Por que não? Por que alguém que tente explorar um atalho numa floresta se torna dono dela e de seus arredores, podendo fazer a porcaria que quiser sem que ninguém, depois, possa explorar o mesmo atalho e fazer nele algo um pouco diferente, melhor e mais bonito?

Na Música Erudita, chega a surpreender a quantidade de idéias musicais legítimas do ponto-de-vista artístico e que seriam consideradas violações de direitos autorais, a prevalecer essa visão mais estreita. Só para ilustrar (e consolar os que se sentem perseguidos), cito aqui a inevitável comparação que sempre se faz entre um dos temas da Nona Sinfonia de Franz Schubert com o famosíssimo tema da Nona Sinfonia de Beethoven. Detalhe: Schubert era contemporâneo de Beethoven, e o admirava como a um Deus. Agora, vejam, esse trecho extraído do blog Symphony Salom:

(…)The Exposition includes three Codettas, of which only the second one is of exceptional note. The Development opens with an apparently new melodic phrase, but it is a derivative of this second Codetta; the arresting feature of this melody is its close resemblance to the principal Theme of the Finale of Beethoven's Ninth Symphony: reverse the order of the first three tones, and the parallelism is complete (compare Beethoven's third Episode of Beethoven's Finale). Surely Schubert stood in no need of "borrowing" melodic ideas from anyone, nor was he ever known to do so. If this coincidence has any special meaning, it serves only to indicate how deeply Beethoven's musical spirit impressed that of Schubert.(…)
Clique aqui se quiser ler o artigo completo.

Tradução:

A Exposição inclui três Codettas, das quais somente a segunda é digna de nota. O Desenvolvimento começa apresentando uma frase melódica aparentemente inédita, mas que, na verdade, deriva desta segunda Codetta; o que nos chama a atenção nesta melodia é a sua forte semelhança com o tema principal do Finale da Nona Sinfonia de Beethoven: de fato, basta invertermos a ordem das três primeiras notas para que tenhamos um paralelismo completo (comparar com o terceiro Episódio do Finale da sinfonia de Beethoven). Schubert certamente não precisava tomar idéias melódicas emprestadas de ninguém, nem se tem notícia de que o tenha feito. Se esta coincidência tiver algum significado especial, talvez nos sirva apenas para indicar o quão profundamente Schubert se deixou impressionar pelo espírito musical de Beethoven.

Este vídeo contem o quarto movimento da Nona Sinfonia de Schubert. Por favor, avancem o vídeo até a marca dos 03:20, mais ou menos (desculpem-me por não tê-lo editado). A frase melódica mencionada acima começa exatamente aos 03:26 e que se repete em 03:39:



Quanto ao tema da Nona de Beethoven, é tão famoso que nem vou colocar aqui. Espero que tenham se lembrado dele ao ouvirem o tema de Schubert (se não se lembraram, é sinal de que Schubert conseguiu disfarçar bem, não é mesmo?...).

Em Música Erudita, existe um negócio chamado “Variação” que, no universo da Música Popular, poderia ser confundido muitas vezes com plágio. Beethoven compôs as Variações Diabelli, sobre o tema de uma valsa de Anton Diabelli; Bach compôs as Variações Goldberg, além da Oferenda Musical (sobre um tema do rei da Prússia, Frederico II), e assim vai. O que Schubert fez, então, poderia ser considerado uma variação do tema de Beethoven, mas se este tivesse sido o seu objetivo, deveria ter sido mais explícito, escrevendo em algum lugar algo como "variação sobre um tema de Beethoven". Deveria, em vez de mudar as notas da forma como o fez, ter mudado somente o ritmo. Mas ele fez o contrário: o ritmo é o mesmo, as notas é que mudam de posição, e ainda assim somente no início do tema. Trata-se de um outro tipo de variação, cujo maior exemplo está na Arte da Fuga, de Bach (nela, a propósito, há ambos os tipos de variação – de notas e de ritmo).

Mas, voltando à vaca fria... O problema é que carecemos de critérios objetivos, não tanto para coibir os plágios, mas para proteger os artistas de cometê-los inconscientemente ou de serem vítimas de acusações infundadas. Eu até queria já começar a abordar este assunto, além de citar outros casos nacionais, como os de Roberto Carlos, Tom Jobim e Fagner, mas o post já está longo demais. Fica para a próxima, ok?

DEMAIS ARTIGOS DESTA SÉRIE: 1 - 3 - 4 - 5 - 6





12 junho 2009

O Plágio e a Criatividade





Faz exatamente um ano que a banda inglesa Coldplay lançou o que viria a ser, provavelmente, o mais bem sucedido (e, também, o mais polêmico) álbum de sua carreira. Viva La Vida or Death and All His Friends (título referente a um quadro da artista mexicana Frida Kahlo) obteve um sucesso estrondoso, ganhando três das sete indicações ao Grammy Award que recebeu, entre as quais a de Melhor Canção de Rock, com a faixa Viva La Vida.

Foi merecido? Sim, foi merecido. Confesso, inclusive, que, quando a ouvi pela primeira vez, tive uma agradável sensação de dejàvu. Não, não estou sendo irônico. Sempre tenho dejàvus quando ouço sequências de acordes como a que se repete ao longo dessa música (e que eu comento em detalhes, lá no final deste artigo). Ela flui com tamanha naturalidade que é como se eu já a conhecesse há séculos e séculos. Tomem isso como um elogio.

Tudo ia muito bem até que Joe Satriani, conhecido guitarrista e compositor, decidiu botar a boca no trombone: para ele, o tema principal de Viva La Vida seria uma cópia quase perfeita do tema principal de If I Could Fly, música instrumental de sua autoria. Para os que ainda não sabem do que se trata, ouçam as duas e tirem suas próprias conclusões. Primeiro, Viva La Vida:



Excelente, não? Agora, ouçam If I Could Fly - prestem atenção ao trecho que começa na marca dos 50 segundos:



Grande música, também.

Mas aí veio o Cat Stevens e quis entrar na briga: disse que Foreigner Suite, de sua autoria, tinha sido também plagiada pela banda inglesa. O vídeo abaixo foi preparado especialmente para mostrar uma comparação entre as duas (pulem a parte que fala de Mozart, Armageddon, etc.):



Na minha opinião, o Cat forçou um pouco a barra. Só se ele achou o arranjo orquestral parecido...

Mas, como se não bastassem duas acusações de plágio, veio a terceira, com a banda norte-americana Creaky Boards e sua canção The Songs I Didn’t Write.

Há muito material (textos, vídeos, etc.) na Internet abordando essa encrenca. Uns são contra, outros a favor, e há até mesmo os que ficam em cima do muro. De todo esse material, destaco o seguinte vídeo, por resumir todos os outros que coloquei mais acima, e por servir de introdução ao que direi a seguir:



Faltou o Creaky Boards, não? Nem me dei ao trabalho de procurar a música dessa banda porque, bem antes disso, eles já haviam se retratado, admitindo a possibilidade de que ambas as canções - a deles e a do Coldplay - poderiam ter sido influenciadas pela trilha sonora do video game The Legend of Zelda (???).

Se essa história do vídeo game for verdadeira, trata-se de dois plágios em sequência. Esse encadeamento de plágios, em que “fulano copiou de ciclano, que copiou de beltrano, e assim por diante”, parece ser justamente a tese central do vídeo anterior, e dá o que pensar.

Meus amigos, eu sei que tratar desse assunto é polêmica na certa. Mas, por favor, estejam à vontade para discordar de cada linha que eu escrever.

Em geral, criatividade e plágio são conceitos que, quando colocados lado-a-lado, sugerem uma oposição como a do bem contra o mal, ou a do mocinho contra o bandido. Sinto que há uma simplificação excessiva nessa forma de pensar. Algo me diz, por exemplo, que, se não tomarmos cuidado, daqui a pouco, para cada música de sucesso que se lançar, haverá uma saraivada de acusações de plágio. Só os artistas menos conhecidos escaparão de entrar na roda.

Theodor Adorno, um importante compositor e musicólogo alemão do século XX, sustentava que o uso do plágio é extensivo na música popular (popular music in general employs extensive plagiarism: variety in the musical material occurs in details whereas genuinely original musical content tends to be sparse when compared to classical or art music - clique aqui para ler o documento na íntegra).

Na prática, quase todos os casos de plágio musical de que se tem notícia envolvem trechos relativamente curtos, mas fundamentais para ambas as músicas. A questão é: o que pode, então, ser considerado um trecho suficientemente longo? E se houver uma única nota diferente no meio dele?

Ora, valendo-se de tamanha indefinição, Will Champion, o baterista do ColdPlay, defendeu-se da acusação de Stevens dizendo que “as notas de uma oitava não pertencem a ninguém”.

Coincidentemente (ou não), outro músico famoso já havia se defendido de acusações idênticas em 2004, dizendo que, "afinal, só existem 12 notas". Tais palavras devem ter soado arrogantes demais aos ouvidos de Frank Behrens, colunista do site Art Times, motivando-o a produzir um artigo aparentemente demolidor. O pior é que ele é tão persuasivo que quase nos convence de que está com a razão.

Mas eu também sou músico e entendi muito bem o que o meu colega quis dizer com “só existem 12 notas”. Quanto ao artigo, o seu autor pode até impressionar alguns desavisados com o seu domínio da Análise Combinatória, mas, para mim, está sofismando, ao tratar as “12 notas” como se fossem, por exemplo, os 12 signos do Zodíaco, e não os 12 semitons de uma escala musical. Fica até difícil de entender como um texto desses consegue ser aceito numa publicação especializada em artes.

Tudo o que Behrens disse seria válido se estivéssemos falando de loterias, não de música. Cada nota de uma composição, do ponto-de-vista tanto melódico como harmônico (e ele deveria saber disso), está ligada às demais por regras de contraponto, harmonia, etc. Só isso já seria o bastante para reduzir significativamente o número de maneiras com que elas podem ser combinadas sem perderem a coerência que nos faz percebê-las como música. Sem falar das restrições impostas pelo gênero escolhido para a composição, das quais o compositor não pode fugir sem que seja incompreendido pelo seu público.

Voltando ao ColdPlay, quero aproveitar um gancho deixado por Champion em sua defesa, ao dizer que “existem 12000 composições com a mesma sequência de acordes”. Ora, o leigo em música (o mesmo que acreditou no artigo de Frank Behrens), pode até achar que isso é o mesmo que dizer que “eu não sou o único a plagiar”. Eu não acredito que um músico de verdade vá deixar de entender o que ele quis dizer. Eu entendi. Não sei de que forma ele chegou a esse número, ou se é só força de expressão, mas o que ele quis dizer é que é certamente muito fácil encontrar músicas com a mesma sequência de acordes. È só procurar.

Mas, será que o problema se resumiria à sequência de acordes? Vou analisar, primeiro, o caso ColdPlay x Satriani, por ser o mais “evidente”.

Sequência de acordes:

Viva La Vida (Coldplay): C# - D# - G# - Fm

If I Could Fly (Satriani): Em7 – A – Dmaj7sus2 – Bmadd4

Os acordes são basicamente os mesmos (se transferidos para o mesmo tom, é lógico). No primeiro caso, os acordes correspondem à sequência de graus IV - V - I - VI. No segundo caso, a sequência é a mesma (omitindo-se as dissonâncias, para facilitar a comparação), com exceção do primeiro acorde, que, em vez de ser do IV grau, é do II grau. Essa única diferença, no entanto, eu acho que nem existe, uma vez que a sétima acrescentada ao acorde de II grau reforça ainda mais o seu caráter de sub-dominante, tornando-o praticamente igual ao do IV grau. Satriani coloca um temperinho, formando dissonâncias com notas emprestadas da própria melodia, mas a sequência harmônica é, basicamente, a mesma. É interessante notar que ele, na introdução de sua música, já usa um acorde Gmaj7, que é o acorde de IV grau acrescido de uma sétima, que, por sinal, antecipa a nota inicial da melodia em questão. Se esse acorde tivesse sido colocado no lugar do acorde de II grau, teria funcionado do mesmo jeito, e aí é que não teríamos como negar que as duas sequências harmônicas são idênticas.

Agora, as melodias:

Viva La Vida (Coldplay):
Tema de Viva La Vida

If I Could Fly (Satriani):
Tema de If I Could Fly

Assinalei em vermelho os trechos que eu considero iguais. As notas seguintes seguem caminhos diferentes: enquanto Satriani insiste nas bordaduras, terminando nas três notas sincopadas, o tema de Viva La Vida termina com movimentos bem diferentes. Mesmo assim, juntando as duas coisas, melodia e harmonia, fica tudo realmente muito parecido.

Se fosse somente pela sequência de acordes, eu diria que Satriani não poderia reclamar de nada, pois, como se alega no vídeo abaixo, ele não teria sido o primeiro a usá-la. Um grupo chamado “Enanitos Verdes” (quem???) já teria chegado na frente. Vejam:



É… não tenho dúvidas de que essa sequência de acordes é realmente bastante comum mesmo, mas o vídeo acima, que me desculpem, não ilustra tão bem assim essa tese.

No próximo post, direi o que penso a respeito daquele famoso caso Jorge Ben Jor x Rod Stewart, além de outros casos envolvendo artistas nacionais, como Roberto Carlos, Fagner e Tom Jobim. Quero falar, também, um pouco mais sobre sequências de acordes. Até breve.

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